Ucrânia, Rússia e o fim das ilusões europeias

Durante décadas, a Europa habituou-se a olhar para o espaço pós-soviético com uma mistura de prudência e autoengano. Acreditou — ou quis acreditar — que o fim da União Soviética tinha encerrado definitivamente a lógica imperial Russa. Mas os acontecimentos na Ucrânia vieram expor, de forma brutal, o erro dessa leitura.

A independência das antigas repúblicas soviéticas foi, em muitos casos, mais formal do que real. Por detrás das novas fronteiras, manteve-se uma hierarquia implícita, onde Moscovo continuou a assumir-se como centro natural de poder. Essa visão nunca desapareceu do Kremlin. Pelo contrário, foi sendo adaptada: primeiro através de influência política e económica, depois por meio de intervenções diretas e, mais recentemente, pela instrumentalização das comunidades russófonas como pretexto de ingerência.

Os chamados “conflitos congelados” — da Transnístria ao Cáucaso — não são acidentes da história. São peças de uma estratégia coerente que mantém zonas de instabilidade sob controlo Russo. A distribuição massiva de passaportes a populações nesses territórios revela bem essa lógica: criar cidadãos Russos fora de portas para legitimar futuras intervenções. Em termos simples, onde Moscovo identifica “compatriotas”, reclama também o direito de intervir.

É neste quadro que devemos compreender a guerra na Ucrânia. Não como um episódio isolado, mas como a expressão mais violenta de uma visão neocolonial persistente. Uma visão alimentada por mitos profundamente enraizados: a ideia de que Rússia, Bielorrússia e Ucrânia formam uma unidade histórica indivisível; a convicção de que a Rússia só pode existir como grande potência; e a crença num direito quase natural de controlar o seu “estrangeiro próximo”.

Posto isto, a escolha Ucraniana de um caminho autónomo — reforçada pela revolução do Euromaidan em 2014 — tornou-se, para o Kremlin, simplesmente inaceitável. Não porque representasse uma ameaça militar, mas porque punha em causa o próprio modelo de poder russo. Uma Ucrânia democrática, funcional e independente é, em si mesma, uma negação do argumento imperial.

As justificações apresentadas por Moscovo para a invasão de 2022 não resistem a uma análise séria. A narrativa da “desnazificação” é uma construção propagandística sem base factual, desmentida tanto pela realidade política Ucraniana como pela própria composição da sua sociedade. Do mesmo modo, o argumento da ameaça da NATO ignora deliberadamente a cronologia dos acontecimentos: o verdadeiro ponto de rutura não foi a expansão da Aliança, mas sim a mobilização popular ucraniana contra a corrupção e a tutela russa.

O mais revelador, talvez, tenha sido o erro de cálculo do Kremlin. Convencido da sua própria narrativa, o poder russo acreditou numa vitória rápida, numa Ucrânia frágil e numa população que acolheria as tropas como libertadoras. Encontrou, em vez disso, uma resistência determinada — cívica e militar — que expôs não apenas os limites da força russa, mas também a fragilidade de um sistema fechado sobre si próprio.

Quatro anos depois da invasão em grande escala, o cenário é de impasse. A Rússia falhou os seus objetivos estratégicos iniciais, mas continua capaz de prolongar o conflito. A Ucrânia resiste, mas paga um preço elevadíssimo. E a Europa, apesar de uma reação inicial de unidade, continua hesitante, dividida entre o apoio necessário e o receio da escalada.

É aqui que se joga, verdadeiramente, o futuro do continente. Persistir na ambiguidade é, na prática, permitir que a agressão se normalize. A história europeia já mostrou, em momentos críticos, o custo de ceder perante projetos expansionistas travestidos de reivindicações legítimas.

A questão, portanto, não é apenas o destino da Ucrânia. É a credibilidade da própria Europa enquanto espaço político capaz de defender os seus princípios. Apoiar a Ucrânia de forma consistente — incluindo no plano militar — não é alimentar a guerra; é reconhecer que a paz, para ser duradoura, não pode assentar na capitulação de quem foi agredido.

Talvez este seja, afinal, o fim de uma longa ilusão: a de que a estabilidade europeia poderia ser garantida ignorando as dinâmicas de poder que nunca chegaram verdadeiramente a desaparecer.

Francisco Piedade Vaz

Doutorado em História Marítima
Investigador no Centro de História da Universidade de Lisboa

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