A saturação crescente das redes sem fios tradicionais, impulsionada pelo streaming de alta-definição, videochamadas constantes e um número cada vez maior de dispositivos ligados, exige novas soluções de conectividade. Em resposta a este desafio, uma equipa de investigadores da Universidade de Cambridge desenvolveu um sistema óptico sem fios inovador que utiliza feixes de luz em vez de ondas de rádio, alcançando velocidades de transmissão impressionantes e deixando o Wi-Fi convencional a uma grande distância.
O estudo publicado na revista científica Advanced Photonics Nexus revela que o novo sistema conseguiu atingir uma velocidade agregada recorde de 362,7 gigabits por segundo (Gbps) numa distância de dois metros. Esta proeza assenta num chip compacto equipado com uma matriz de cinco por cinco lasers do tipo VCSEL (Vertical Cavity Surface Emitting Laser), comummente aplicados em centros de dados. Durante os testes, vinte e um destes lasers funcionaram em simultâneo, debitando individualmente entre 13 e 19 Gbps para gerar uma largura de banda sem precedentes em comunicações interiores.
Além da capacidade bruta de transferência, a tecnologia destaca-se pela sua sustentabilidade energética. Com um consumo fixado em cerca de 1,4 nanojulios por bit, a solução consome aproximadamente metade da energia exigida por tecnologias Wi-Fi equivalentes. Esta redução ganha particular relevância num momento em que a pegada energética global da infraestrutura digital e dos centros de dados se tornou uma preocupação central.
Para contornar o problema das interferências entre os múltiplos feixes luminosos emitidos pela matriz, os cientistas desenharam um esquema óptico avançado que recorre a microlentes e a uma distribuição em grelha. Este arranjo permite direccionar cada sinal de forma precisa para áreas específicas, garantindo uma iluminação uniforme e viabilizando várias ligações simultâneas num mesmo espaço sem perda de qualidade no sinal.
Apesar do desempenho extraordinário, a tecnologia apresenta limites físicos claros: a luz não atravessa paredes e exige linha de visão directa entre a fonte e o receptor. Por essa razão, os próprios investigadores sublinham que o objectivo não passa por eliminar de imediato o Wi-Fi existente, mas sim por complementar a infraestrutura actual. Aplicada em habitações, escritórios ou espaços públicos com elevada densidade de utilizadores, esta inovação promete aliviar o tráfego das redes de rádio e inaugurar uma nova era em que a luz assume o papel principal na internet do quotidiano.

