O setor da restauração em Estocolmo está a ser palco de uma experiência tecnológica invulgar que desafia as fronteiras da gestão empresarial. No Andon Café, embora o café continue a ser preparado e servido por mãos humanas, as decisões administrativas e operacionais cabem inteiramente à Mona, um agente de inteligência artificial desenvolvido pela startup Andon Labs.
Alimentada pelo modelo Gemini da Google, a Mona assumiu as rédeas do negócio desde a sua abertura em meados de abril. A sua autonomia é surpreendente, sendo responsável por tarefas complexas que habitualmente exigiriam uma equipa de gestão dedicada. Entre as suas funções incluem-se a publicação de vagas de emprego em plataformas como o LinkedIn, a análise de currículos e a contratação de pessoal. Além disso, a IA gere a logística de stocks, faz encomendas diárias a grossistas e tratou pessoalmente de toda a burocracia inicial, como a contratação de serviços de eletricidade, internet e o licenciamento para o funcionamento de esplanadas. A comunicação com os baristas é feita através da plataforma Slack, onde a Mona coordena as operações diárias.
Apesar da curiosidade que desperta nos clientes, que podem inclusivamente interagir com a gestora virtual através de um telefone no café, o negócio enfrenta desafios financeiros significativos. Dos cerca de 17.800 euros do orçamento inicial, restam agora menos de 4.250 euros. Embora as vendas tenham gerado algum retorno, os elevados custos iniciais e a forte concorrência no mercado sueco estão a dificultar a obtenção de lucro. A Mona também tem demonstrado algumas limitações técnicas, especialmente na gestão de inventário, o que os especialistas atribuem a uma janela de contexto limitada que por vezes a faz perder o fio condutor das necessidades do stock.
A experiência tem provocado um debate ético intenso entre académicos e especialistas. Emrah Karakaya, do Instituto Real de Tecnologia KTH, descreve este projeto como o abrir de uma caixa de Pandora, questionando quem será responsabilizado legalmente caso ocorra um problema grave, como uma intoxicação alimentar. Outro ponto crítico prende-se com a cultura de trabalho, uma vez que a IA envia frequentemente mensagens aos funcionários fora do horário laboral, ignorando as rigorosas normas de bem-estar e equilíbrio profissional da Suécia.
Para a Andon Labs, sediada em São Francisco, o café funciona como um laboratório de resistência no mundo real. O objetivo fundamental não é apenas vender café, mas sim testar como os agentes de IA se comportam quando recebem dinheiro real e ferramentas de gestão verdadeiras. Segundo a equipa técnica, este projeto é essencial para antecipar e compreender as questões éticas e práticas que surgirão num futuro onde as organizações poderão ser geridas de forma totalmente autónoma. Por agora, o Andon Café permanece como um campo de ensaio sobre a convivência entre o julgamento humano e a eficiência fria da tecnologia.

