O desperdício associado à construção de grandes infraestruturas desportivas tem sido um dos maiores problemas das cidades que acolhem eventos internacionais. Muitas das arenas e alojamentos do passado transformaram-se em “elefantes brancos” abandonados após o fim das competições. Em Milão, a recente Vila Olímpica mudou este cenário ao aplicar o conceito de arquitetura reversível, integrada no plano de regeneração do Campus Porta Romana.
Desenhado pelo atelier norte-americano SOM (Skidmore, Owings & Merrill), o complexo foi estruturado sob a premissa de que o evento desportivo era apenas uma fase temporária da vida dos edifícios. Em vez de projetar alojamentos tradicionais para atletas que depois exigiriam demolições ou obras profundas, os arquitetos desenharam as estruturas a pensar no seu segundo e definitivo uso: habitação estudantil e espaço comunitário.
A grande inovação deste projeto residiu na sua modularidade e flexibilidade. Os edifícios utilizaram sistemas de paredes interiores secas e configuráveis. Isto permitiu que os quartos dos atletas fossem imediatamente transformados em estúdios universitários funcionais, sem a necessidade de deitar abaixo paredes de betão ou gerar toneladas de entulho.
Até os materiais utilizados na construção seguiram uma lógica rigorosa de economia circular. Foram aplicadas madeiras de origem sustentável certificada e betão com altos índices de reciclagem, assegurando que o complexo cumprisse os requisitos ambientais mais exigentes.
Para além da vertente habitacional, o projeto eliminou as barreiras físicas que costumam isolar as vilas olímpicas. O complexo ficou totalmente integrado na malha urbana de Milão através de um corredor verde e de praças públicas abertas, que promovem a biodiversidade local através de hortas urbanas e sistemas de captação de água da chuva.
Com o projeto de Porta Romana, a arquitetura provou que a sustentabilidade não passa apenas por colocar painéis solares nas fachadas, mas sim por pensar no ciclo de vida completo de uma obra. Os edifícios demonstraram a capacidade de mudar de função com facilidade, servindo as necessidades das populações sem sobrecarregar o planeta.
Crédito das Imagens: SOM – Skidmore, Owings & Merrill

