Como fotógrafo, passo grande parte dos meus dias a olhar para imagens através de lentes de alta qualidade e a tratar ficheiros originais no Lightroom e no Photoshop. Por isso, assisto com uma mistura de divertimento e frustração à atual estratégia de marketing das grandes marcas de tecnologia. Todos os anos, a história repete-se. As marcas lançam novos telemóveis com números astronómicos, prometendo 100 ou 200 megapixels, e o público vai a corret comprá-los na ilusão de que vai finalmente ter a qualidade de um estúdio de Hollywood no bolso das calças.
Gostava que fosse verdade, mas a física ótica não quer saber do marketing. A realidade que as marcas tentam esconder atrás de preços exorbitantes é muito simples. A guerra dos megapixels é uma mentira!
Para quem não domina os termos técnicos, o megapixel não mede a beleza, a nitidez ou a fidelidade de uma imagem. Mede apenas o tamanho do quadro, ou seja, as dimensões do ficheiro final. O verdadeiro coração de qualquer câmara, aquilo que puxa a luz e cria a perfeição numa fotografia, é o tamanho físico do sensor, a peça que fica escondida lá dentro.
É aqui que a ilusão se desfaz. Uma câmara profissional moderna com “apenas” 20 megapixels destrói a qualidade de imagem de qualquer telemóvel de 200 megapixels. O motivo é puramente geométrico. O sensor de um telemóvel é minúsculo, muitas vezes do tamanho da unha de uma criança. Quando os fabricantes decidem esmagar 200 milhões de pixels dentro daquele espaço microscópico, cada pixel individual torna-se tão pequeno que quase não consegue captar luz.
O resultado de um sensor sem luz é uma fotografia original desastrosa, cheia de manchas escuras e grão a que chamamos ruído. Como é óbvio, as marcas não podem deixar que o utilizador veja essa imagem borrada depois de pagar uma fortuna pelo telemóvel. Então, entra em cena o verdadeiro truque, a Inteligência Artificial.
No milissegundo em que carrega no botão para disparar, o processador do telemóvel aplica uma maquilhagem digital pesadíssima. A IA limpa o ruído, inventa detalhes onde eles não existiam e alisa a imagem para disfarçar os defeitos da física. Quando olha para o ecrã, o utilizador não está a ver uma fotografia pura do momento real, está a ver uma pintura digital gerada por um algoritmo que decidiu como a imagem deveria ser.
Como profissional, valorizo a evolução tecnológica, mas recuso-me a aceitar a mentira de que mais números significam mais arte. Se quer fotografar melhor, não procure mais megapixels. Procure melhor luz, estude a composição e, acima de tudo, não se deixe enganar por truques de marketing embalados em caixas caras.
José António Marques
Fotógrafo

