Vivemos tempos de um desenvolvimento técnico, científico e de acesso à informação sem precedentes na história. A sociedade debate-se com a automação, a exploração do espaço e a resolução de problemas complexos através do conhecimento acumulado, o que pressupõe um nível de esclarecimento coletivo elevado.
No entanto, subsiste um contraste flagrante entre este avanço e a persistência de comportamentos antigos e irracionais. A necessidade coletiva de idolatrar outras pessoas.
Colocar gente normal num pedestal, sejam eles atletas, políticos, artistas ou figuras do universo digital, surge como um anacronismo difícil de justificar numa era que se pretende intelectualmente emancipada.
Podemos compreender esta tendência para a veneração em tempos ancestrais, em períodos em que a sobrevivência do grupo dependia da obediência cega a um líder ou a uma figura central de força. Contudo, a transposição deste mecanismo para o século XXI não tem qualquer lógica. Com sistemas democráticos consolidados, ferramentas de educação universal e um foco claro na autonomia individual, a manutenção do culto da personalidade torna-se uma cedência desnecessária a uma mentalidade de rebanho. O apego a estas figuras públicas sugere que, apesar do progresso exterior, há uma resistência em abandonar estruturas psicológicas primitivas de submissão.
O fenómeno ganha uma nova dimensão com a omnipresença dos ecrãs, que transformaram a admiração à distância numa ilusão de proximidade quotidiana. O público é incentivado a investir tempo, atenção e recursos emocionais significativos em figuras que desconhecem por completo a existência dos seus seguidores.
Esta ligação unilateral, simula uma intimidade que não existe. É o que comprovam os relatórios de consumo digital de entidades como a Marktest ou a We Are Social, que apontam para médias globais de permanência nas redes sociais que superam as 2 horas e 20 minutos diários, revelando que mais de 80% dos utilizadores seguem ativamente criadores de conteúdo e figuras de relevo público.
Torna-se visível o absurdo do tempo perdido e da energia desperdiçada em discussões estéreis nas plataformas digitais, que frequentemente escalam para a violência verbal e ataques pessoais agressivos. Consumir horas diárias em debates acesos em defesa ou ataque a alguém que habita uma realidade inteiramente distante constitui um dos traços mais ridículos e incompreensíveis desta dependência mediática.
A análise desta idolatração revela também um processo de projeção psicológica, onde o público projeta nas celebridades as suas próprias ambições de sucesso, riqueza, beleza ou poder.
O ídolo deixa de ser visto como um ser humano comum e passa a ser tratado como um conceito idealizado e infalível. Esta desumanização gera uma dinâmica instável, visível na facilidade com que o fanatismo se transforma em linchamento público ao menor deslize da figura idealizada. Esta oscilação constante evidencia que o foco nunca esteve no mérito real da pessoa que está no pedestal, mas sim na utilidade que ela tem para preencher vazios emocionais e frustrações de quem a segue.
A propósito do mundial de futebol que decorreu recentemente, o debate diário em torno de figuras desportivas de topo, como Cristiano Ronaldo, ilustra perfeitamente este cenário.
A discussão pública dividiu-se frequentemente entre a análise racional do seu rendimento coletivo na seleção nacional e o desejo fervoroso da maioria em vê-lo acumular recordes pessoais.
Sondagens recorrentes publicadas na imprensa desportiva portuguesa, como o jornal Record ou A Bola, chegaram a registar maiorias superiores a 70% de adeptos que exigiam a sua titularidade absoluta, mesmo quando os dados táticos de rendimento sugeriam o oposto.
Quando a concretização de metas individuais de um atleta passa a ser mais importante para os adeptos do que o próprio sucesso da equipa de todos, fica evidente como a imagem idealizada do ídolo se sobrepõe à lógica e ao bem comum, operando como uma validação da identidade de quem o segue.
O impacto mais crítico deste comportamento reside na perda do espírito crítico e na renúncia ao pensamento autónomo. Ao conferir a uma figura pública o estatuto de autoridade moral ou intelectual indiscutível, as massas tendem a aceitar opiniões, escolhas e discursos sem qualquer tipo de filtro ou interrogação.
Numa época que valoriza a instrução, condicionar critérios de julgamento às posições de celebridades, muitas vezes motivadas por interesses comerciais ou promoção de ego, constitui um retrocesso evidente. Plataformas como o Influencer Marketing Hub indicam que quase 50% dos consumidores jovens admitem adotar comportamentos ou adquirir produtos baseando-se estritamente na palavra da figura que idolatram, provando que o espírito crítico cede facilmente ao dogma comercial.
O perigo torna-se especialmente agudo no plano político, onde o fenómeno se traduz num seguimento cego e dogmático, como se observa frequentemente no comportamento de franjas substanciais de apoiantes de Donald Trump.
Monitorizações de centros como o Pew Research Center revelam que entre 60% a 70% da sua base de apoio mais fiel recusa frontalmente dados e estatísticas oficiais sobre a economia, os resultados eleitorais ou a justiça quando estes contrariam as declarações do líder, demonstrando uma manifesta incapacidade de articular razões lógicas e optando pela rejeição frontal de factos objetivos e verificáveis em detrimento de uma narrativa ficcional de infalibilidade.
Credito da Imagem: Stephen Maturen / Getty Images
Em suma, a persistência desta postura infantil e irracional revela uma fratura profunda naquilo que se assume como uma civilização avançada. Esta necessidade coletiva perpetua-se porque a evolução tecnológica e o acesso à informação avançaram a um ritmo infinitamente superior ao da maturidade emocional humana.
No fundo, a idolatração surge como um refúgio cómodo face à exigência de pensar por si próprio e de assumir a responsabilidade pelas próprias convicções, funcionando como um anestesiante contra a complexidade do mundo atual. Enquanto a validação individual depender da glorificação de terceiros, o progresso da humanidade continuará a ser uma ilusão técnica, uma vez que a verdadeira evolução social se afere pela autonomia mental e pela recusa definitiva em criar deuses de carne e osso.
Victor Sales Gomes
Produtor de Conteúdos
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