A indústria fotográfica parece ter decidido que o futuro não tem espelhos. No entanto, ao forçar a transição para os sistemas mirrorless, as marcas estão a ignorar pilares fundamentais que tornaram a fotografia digital no que ela é hoje. O que é apresentado como evolução tecnológica é, na minha opinião, um retrocesso na experiência do fotógrafo.
Sou totalmente a favor das DSLR e do seu visor óptico OVF (Optical Viewfinder).
Nas máquinas sem espelho, o que vemos através do visor é um Electronic Viewfinder (EVF), ou seja, um pequeno ecrã LCD, o que significa que estamos a olhar para uma interpretação digital da realidade, uma imagem já processada pelo software da câmara.
Através do prisma de uma DSLR, vemos a luz real, sem atrasos (lag) e com o alcance dinâmico total do olho humano. Não há fadiga ocular causada por painéis luminosos nem interpretações de cor artificiais antes do clique.
Para além disso, existe outra questão fundamental. Uma câmara mirrorless é um computador constantemente ligado. O sensor e o ecrã (ou o EVF) consomem energia ininterruptamente para mostrar a imagem. Enquanto uma DSLR de gama média pode facilmente ultrapassar as 1000 ou 1500 fotografias com uma única bateria (porque o visor não consome energia), muitas mirrorless não conseguem chegar às 400 ou 500.
Para fotógrafos de viagens em locais remotos, por exemplo, isto significa carregar o dobro ou o triplo do peso em baterias extra, anulando a suposta vantagem de “leveza” destes novos corpos.
É importante recordar que o conceito de “máquina sem espelho” não é novo. Antes do domínio das DSLR, as máquinas telemétricas (rangefinders) já não tinham espelho. Se o sistema de espelho e pentaprisma se tornou o padrão da indústria durante décadas, foi por uma questão de precisão e feedback mecânico. Abandonar este sistema agora, parece mais uma estratégia de marketing para forçar a renovação de parques de lentes, do que uma necessidade técnica absoluta.
As máquinas sem espelho procuram ser cada vez mais pequenas. Contudo, na fotografia profissional, o tamanho é funcional. Lentes profissionais são pesadas. Acoplar uma lente de 70-200mm num corpo mirrorless minúsculo cria um desequilíbrio que torna a operação desconfortável.
Depois existe a questão da fiabilidade. As DSLR têm corpos geralmente mais robustos e provados em combate. Além disso, o sensor de uma DSLR está protegido pelo obturador e pelo espelho quando trocamos de lente. Nas mirrorless, o sensor fica frequentemente exposto a poeiras mal se retira a objetiva.
Em resumo, ao eliminar as DSLR, as marcas limitam a escolha do fotógrafo.
A fotografia não deve ser apenas sobre processamento rápido e algoritmos, é sobre a ligação direta com a luz. Manter o espelho é manter a opção por uma ferramenta de trabalho que privilegia a visão humana sobre a interpretação digital.
José António Marques
Fotógrafo

