Coragem ou cálculo? Quando a história volta a testar a Europa

A guerra na Ucrânia, iniciada com a invasão em grande escala pela Rússia em fevereiro de 2022, tornou-se um dos maiores testes à resiliência política, militar e moral da Ucrânia desde a sua independência. Quatro anos depois, a resistência ucraniana não é apenas uma questão territorial; é uma afirmação de soberania, identidade e direito internacional. Ao mesmo tempo, a atitude dos líderes europeus perante esta ameaça levanta comparações inevitáveis com a postura de Winston Churchill diante da ascensão de Adolf Hitler nos anos 1930 e 1940.

Créditos: Mark Harris illustration for Foreign Policy

Churchill destacou-se num contexto em que muitos preferiam o apaziguamento. Antes mesmo da guerra, denunciou repetidamente o rearmamento alemão e a natureza expansionista do regime nazi, quando grande parte da elite política britânica ainda acreditava que concessões poderiam preservar a paz. O Acordo de Munique simbolizou essa esperança ilusória. Churchill, porém, via na cedência um incentivo à agressão. Quando finalmente assumiu o cargo de primeiro-ministro, em 1940, no momento mais sombrio para o Reino Unido, pronunciou palavras que ecoariam na história: “We shall fight on the beaches… we shall never surrender.” Era mais do que retórica – era a definição de uma postura existencial.

Da esquerda para direita: Chamberlain, Daladier, Hitler, Mussolini e Ciano após a assinatura do Acordo de Munique

Comparar essa liderança com a dos atuais dirigentes europeus exige cautela. O contexto geopolítico é profundamente diferente. A Europa de hoje está integrada em estruturas multilaterais como a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte, que moldam as decisões coletivas. Não se trata da determinação isolada de um líder nacional, mas de consensos entre dezenas de governos com interesses diversos, opiniões públicas fragmentadas e economias interdependentes.

Ainda assim, a comparação revela contrastes importantes. Churchill personificava a clareza moral e a frontalidade na denúncia do perigo. Muitos líderes europeus contemporâneos condenaram a agressão Russa desde o primeiro momento, impuseram sanções económicas severas e forneceram apoio militar significativo à Ucrânia. No entanto, esse apoio foi frequentemente gradual, calibrado e condicionado por receios de escalada, dependências energéticas e pressões internas. Para alguns críticos, essa prudência assemelha-se à hesitação dos anos 1930; para outros, trata-se de responsabilidade estratégica num mundo nuclear.

Há também um ponto de convergência: tanto ontem como hoje, a resistência depende não apenas de líderes, mas de sociedades. Churchill não teria sido eficaz sem a mobilização do povo britânico. Da mesma forma, o apoio europeu à Ucrânia reflete debates parlamentares, eleições e a vontade – por vezes vacilante – dos cidadãos. A diferença está na natureza do risco: em 1940, o Reino Unido enfrentava a invasão iminente; hoje, a maioria dos países europeus apoia a Ucrânia sem estar diretamente sob ataque militar.

Winston Churchill

O ensaio da história não se repete palavra por palavra, mas rima. A Ucrânia tornou-se símbolo de resistência contemporânea, tal como o Reino Unido foi símbolo de resistência em 1940. Se Churchill encarnou a voz solitária que alertava contra a complacência, os líderes europeus atuais atuam num cenário de complexidade institucional e interdependência global. No entanto, a questão central permanece a mesma: até que ponto as democracias estão dispostas a suportar custos – económicos, políticos e estratégicos – para defender princípios?

Por isso, o “nunca nos renderemos” não é uma citação para discursos solenes nem uma relíquia retórica do passado. É o momento em que as palavras deixam de ser conforto e passam a ser compromisso. A História não absolve a hesitação travestida de prudência nem o cálculo disfarçado de sensatez. Entre o medo e a firmeza, entre o custo imediato e a responsabilidade duradoura, cada geração é chamada a escolher. Porque, no fim, não são as palavras que atravessam o tempo – são as escolhas. E a questão que a História nos devolverá, crua e inexorável, será esta: quando a liberdade esteve ameaçada, tivemos a coragem de defendê-la – ou limitámo-nos a assistir?

Francisco Piedade Vaz

Doutorado em História Marítima
Investigador no Centro de História da Universidade de Lisboa

Partilhe nas redes

Facebook
X
LinkedIn
Threads