O Nome das Coisas tem um Preço

Comecemos por uma cena trivial, quase invisível de tão repetida: entramos num restaurante, sentamo-nos à mesa, e aproxima-se alguém que nos cumprimenta, decifra o menu por nós, pressente se temos pressa, sugere o prato certo, resolve na cozinha um contratempo sem que a mesa vizinha disso se aperceba e, no fim, despede-se deixando-nos o desejo íntimo de voltar. Chamámos a essa pessoa, durante décadas, “empregado de mesa”. Reparou no que essa palavra, na verdade, descreve? Descreve apenas alguém que emprega os braços para transportar pratos de um lugar a outro. Nada revela do que ali efetivamente aconteceu.

Foi por isso que a AHRESP, decidiu rever a nomenclatura das coisas. O “empregado de mesa” tornou-se assistente de sala; o “chefe de mesa”, chefe de sala. Houve quem visse nisto um mero exercício cosmético. Não é. É que estas pessoas constituem o primeiro rosto e, amiúde, o único que o cliente encontra dentro de um restaurante. O que fazem é hospitalidade, é leitura fina de pessoas, é diplomacia, é relações-públicas em tempo real. “Levar pratos” é a parte mais rudimentar do ofício. E um nome que só nomeia a parte fácil de um trabalho difícil é um nome que mente por omissão.

Não é intuição minha, é ciência. Um estudo de 2014, publicado no Academy of Management Journal, tornou-se referência ao mostrar que trabalhadores com títulos profissionais mais fiéis à realidade do seu trabalho sentiam menos exaustão emocional do que colegas sem essa mudança.

O nome de uma profissão funciona, pois, como um poderoso emblema identitário: é a primeira informação que transmitimos a clientes e a desconhecidos, indicia competência e estatuto, reconhece o contributo e gera orgulho, mas pode também gerar frustração quando não consegue traduzir o papel desempenhado, ou quando acentua os aspetos estigmatizados da função.

Por outras palavras: o nome que damos a uma profissão não se limita a descrever o trabalho. Molda quem o exerce e a forma como é respeitado por quem dele beneficia. Mudar “empregado” para “assistente” não foi maquilhagem semântica; foi devolver à palavra a verdade do ofício, e a quem o exerce a dignidade que a designação antiga lhe recusava.

É a mesma razão que me leva a insistir numa palavra que a alguns ainda soa estranha: hospitalidade. Falamos há muito de “turismo”, “alojamento turístico” e “restauração” e com razão.
Mas são vocábulos que descrevem transações: uma cama que se aluga, uma refeição que se serve, um destino que se visita. “Hospitalidade” nomeia outra coisa. Nomeia a arte de acolher, de fazer sentir em casa quem está longe da sua. Não são setores de camas e de mesas, são setores de pessoas que cuidam de pessoas. E quando lhe chamamos hospitalidade, dizemos aos profissionais e ao país, que aquilo que fazem de melhor não é vender dormidas, é receber bem. O nome eleva a fasquia. E obriga-nos a ela.

Nesta arqueologia do nome das coisas, deparei-me com um fenómeno curioso e paralelo: nas últimas décadas, multiplicaram-se, nas empresas portuguesas, designações em inglês — CEO, COO, CFO, Head of Sales, Customer Success Manager, Account Executive, e por aí adiante. Sabemos que as palavras também viajam, que as economias se internacionalizam, e que há funções que, pela sua natureza global, adotaram legitimamente designações universais. Mas vale a pena perguntar por que razão o inglês passou também a ser lido, com tanta frequência, como sinónimo de modernidade, competência ou estatuto, como sugere um estudo norte-americano sobre uma multinacional japonesa que adotou o inglês como língua corporativa, concluindo que o idioma, por si só, funciona como marcador de prestígio organizacional.

Sabemos, de resto, que há muito o inglês se tornou a língua franca da gestão internacional, associada a mobilidade, reconhecimento e internacionalização. Segundo a académica britânica Susanne Tietze, não porque seja “melhor”, mas porque passou a representar o acesso a redes globais de conhecimento. E ser global é, como sabemos, prestigiante.

Estas denominações cumprem, no fundo, uma função prática: facilitam a comunicação entre equipas internacionais, alinham estruturas organizacionais, seguem padrões globais de gestão. São propósitos legítimos e perfeitamente compreensíveis. No fundo, não é muito distinto da preocupação que levou a AHRESP a rever a nomenclatura de várias categorias profissionais, em busca de designações que traduzissem, com maior rigor, as competências, as responsabilidades e o verdadeiro valor de cada ofício.

As palavras nunca são apenas palavras: transportam significados, e revelam o modo como uma sociedade valoriza determinadas funções.

E quando uma empresa opta por designações em inglês, fico com a sensação de que a questão não é apenas linguística, é também cultural. Vestimos de inglês as profissões que queremos engrandecer, como se o prestígio se importasse com a língua. E reparem no paradoxo: enquanto importamos títulos anglófonos para prestigiar chefias, deixámos definhar, na sala de um restaurante, profissões nossas, em bom português, sob nomes que as diminuíam. Se a ciência nos diz que o nome molda a dignidade, então nomear bem é um ato de justiça e, em setores que funcionam como montra do país, é também um ato de estratégia.

Dar o nome certo às coisas não é vaidade lexical. É reconhecer que o assistente de sala que nos faz voltar a um restaurante merece tanto respeito quanto qualquer diretor com um título em inglês na porta do gabinete. É compreender que, ao dizermos “hospitalidade”, estamos a firmar um compromisso, não apenas a substituir uma etiqueta. As palavras não são inocentes: dizem-nos, a nós e a quem nos ouve, aquilo em que acreditamos. E há que chamar as coisas pelo nome que merecem. Já no século VI a.C., Confúcio ensinava aos seus discípulos que o primeiro dever de quem governa é a retificação dos nomes: chamar a cada coisa o nome que lhe é devido, pois só assim a palavra se torna fiel à verdade, e a ação, fiel à palavra.

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Ana Jacinto

Secretária-Geral da AHRESP

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